Ana além das ruas, 2014

Autoras: Iasmim Amiden, Isabela Domingues e Júlia Paz, 2014

Conhecida por seu ateliê e intervenções artísticas em Campo Grande, a renomada artista plástica, Ana Ruas, encontrou no universo da arte a possibilidade de tratar de diferentes assuntos e de transformar o olhar rotineiro das pessoas.

Casada com Alexandre, mãe de Helena e Gustavo, a carismática e entusiasmada Ana Ruas se emociona ao falar sobre sua obra de vida. Gaúcha, nascida em Machadinho e criada em São João da Urtiga, conheceu tinta aos 8 anos. Relata o papel de sua mãe como fator determinante de incentivo a sua atual carreira. Teresinha de Lourdes,professora alfabetizadora, soube conduzir o gosto da pequena Ana pela arte, esticava grandes pedaços de algodão na mesa e emprestava seus cadernos para ela pintar. Aos 15 anos fez aulas de pintura com uma freira, aos 17 entrou na faculdade de Artes Visuais em Passo Fundo e formou-se em bacharelado e licenciatura.

Em 1996, veio visitar uma amiga e acabou se envolvendo com a capital sul-mato-grossense em oficinas e exposições. Conta que este foi um dos motivos que a levaram trazer seu “projeto de vida” à cidade. Decidiu ficar ao perceber que aqui era um lugar de oportunidades e que poderia fazer a diferença com seu trabalho, valorizando e estimulando a produção regional. Ana mira o horizonte e sorri, demonstrando imensa gratidão à cidade que lhe abriu as portas.

 
A cidade

Há 15 anos se deparava com construções tipicamente horizontais que lhe fascinavam pelo fato de poder observar uma linha do horizonte que dividia as construções e o céu. Faz uma leitura da capital que se modifica com o tempo. Hoje se vê inserida em uma cidade que passa por um processo de verticalização. Encanta-se agora com o céu recortado por linhas verticais que transformam também seu processo de criação.

Muito “espaçosa” e apaixonada por paredes, Ana Ruas reflete a partir de sua arte sobre diversos pontos da cidade ­–viadutos, edifícios, muros de escolas e residenciais­– a paixão pela pintura poética em locais atípicos e que, algumas vezes, se direciona para a intervenção urbana na Cidade Morena. Provoca novas leituras do cotidiano, por parte dos transeuntes, modifica a relação destes com os espaços, renova as características da capital. Sua pintura nos viadutos trouxe um olhar mais apurado para a beleza campo-grandense e formou um elo entre o nome de Ana e a cidade.

Entre 2002 e 2003 decidiu levar a arte para os bairros e assim criou um de seus projetos, Cor das Ruas, que ofereceu 53 oficinas em 53 bairros e envolveu 720 adolescentes. “Meu objetivo é através de pequenas atividades, de pequenos momentos, que eles consigam enxergar poesia, que no dia a dia existem certas singularidades que é o que dá sentido à vida”, declara a artista.

O que a instiga a tocar projetos como esse é o poder transformador da arte. Seus olhos se enchem de lágrimas ao contar que sua maior recompensa é poder mexer de forma positiva na vida das pessoas que participam e que isso a motiva a continuar.

 
O trabalho

Como arte educadora, vê em seus projetos a importância de educar o olhar, principalmente das crianças, que serão “os contadores da história desse trabalho no futuro”. Tem como propósito acabar com os estereótipos, “as casinhas e arvorezinhas”, o “carimbo mental” provocado pela era visual tecnológica. Acredita no desenho como revelação da visão do ambiente exposto e no exercício do olhar poético sobre o mundo que bombardeia a sociedade de imagens como uma forma de mostrar a essas pessoas, nas entrelinhas de suas produções, o que as tornam diferente uma das outras.

O brilho no olhar da artista encanta quando fala sobre seu trabalho. “Eu acredito que a arte não fala de arte, a arte trata de assuntos”, declara que como uma poesia, trabalha com metáforas, sua desenvoltura em obras e projetos culturais e sociais deixa clara a influência direta de Ana na cidade. Dialogando frequentemente com a arquitetura, utilizando pintura como linguagem e a alvenaria como suporte.

Aprimora seu trabalho artístico na busca de espaço para seu olhar inusitado, na percepção das sutilezas do cotidiano. Faz referência a Chico Anysio quando se lembra de sua observação direta e constante aos elementos da cidade, “O Chico Anysio era perguntado como ele criava os personagens, e ele falava: ‘Se eu fosse dentista, prestaria atenção nas dentaduras. Se eu fosse um pedreiro, estaria observando as paredes. Se eu sou comediante tenho que prestar atenção nos trejeitos’. ” Ri ao dizer que decora os lugares e sabe quais as árvores que estão floridas porque a cidade é sua principal fonte e o espaço é seu principal assunto.

Ao discorrer sobre inspirações artísticas, põe as mãos sobre a cabeça, olha para as árvores através da janela e brinca: “Eu não sou uma artista zen”. Considera seu trabalho fruto de muita pesquisa e discernimento sobre o que faz.

— Você certamente não é uma artista acomodada...

Ana exalta e responde:

— Não existe espaço para o artista acomodado, que não se informa e não escreve a respeito de sua obra. Tem que escrever a respeito. No momento que você verbaliza, que você escreve, passa a conhecer mais seu trabalho.


O ateliê

No desejo de construir um espaço que suprisse sua vontade de oferecer projetos educativos e expor seu trabalho, surgiu a ideia do ateliê. Durante um ano e quatro meses, o ambiente foi ganhando forma, atualmente a artista se orgulha da dimensão que isto se resultou. Os olhos reluzentes traduzem o amor pelo local que desperta o olhar atento do outro, que completa suas obras. Apresenta-o como sua segunda casa e faz uma calorosa receptividade com os visitantes, que embarcam num passeio ricamente cultural entre quatro paredes.

— Porque construiu o ateliê em Campo Grande?

— Por que em São Paulo? Seria só mais um lugar. As pessoas estão percebendo que não é só no Rio e em São Paulo que as coisas acontecem, existem seres pensantes em qualquer lugar do mundo. Então a gente tem que fazer a diferença.

Aberto para o público, o ateliê disponibiliza lugar para oficinas, o café filosófico e as palestras de diversas vertentes. Recebe desde a dona de casa até o empresário. Tem por objetivo social suprir a carência de formação, de cultura, aproximando as pessoas e desmistificando os artistas, tirando-os de um pedestal. Acredita na diferença que a inserção de tal espaço na capital produz para a valorização da prática artística no Estado e em seu reconhecimento em outros lugares do país.

Ao narrar da história de seu ateliê, escorrem lágrimas de orgulho sobre casos de reconhecimento de seu trabalho como função social e poder transformador na vida das pessoas. Olha para cima e agradece pela saúde que lhe põe de pé todos os dias, retira da zona de conforto e lhe provoca anseios por fazer de um sonho próprio o incentivo de sonhos alheios.

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