A vida como obra de arte, 2014

Por Thais Pompeo

Avessa à imagem do artista romântico isolado em seu ateliê, Ana Ruas põe a mão na massa. Pinta muros, educa - ou desengessa - o olhar de crianças e de adultos. Um trabalho incansável em busca de um mundo mais inspirador, tocado pela arte e pela sensibilidade do olhar. Um trabalho que tem levado pequenas multidões para seu ateliê - hoje um ponto de referência das artes visuais da região - e a uma grande evolução de sua própria obra.

Que tal encarar a vida como obra de arte? Era esta a sugestão do filósofo Friedrich Nietzsche. Uma-vida-como-obra-de-arte. Olhar vivo e atento às coisas do mundo, entrega, um estado faminto de alma: faminto por novas possibilidades, pela passagem do não-ser ao ser. Um movimento contrário à apatia, ao senso comum. Como seria esse mundo? Ana Luisa Ruas encara sua vida assim. Uma artista plástica, para ironia da metáfora.

Para desmonumentalizar a ideia de obra de arte, como Nietzsche propõe, usaremos uma explicação que ela mesma dava para crianças no seu ateliê: "Sabe por que eu pintei um monte de formiguinhas? Porque a formiguinha é persistente. Se ela está vindo e você coloca o pé na frente, ela dá a volta e continua. Ela tem objetivos; vive coletivamente...." Simples, mas explica o jeito Ana Ruas de encarar a vida. Uma mulher pequena, magrinha que tem o olhar e a habilidade para realizar coisas que ainda não existem. Serve um café, procurando o telefone, o controle do ar. Fala corrido, deixando claro que a cabeça anda a milhão. Ela nos recebeu entre um compromisso e outro. Foram necessários três encontros para que essa entrevista fosse feita. No fim de cada conversa, ela dizia: "Agora tenho que ir, eles estão me esperando." Com um sorriso no rosto e a bolsa pendurada no ombro.

A gaúcha chegou a Campo Grande em 1996, aos 29 anos, para ficar alguns meses com uma amiga, depois de voltar de uma temporada nos Estados Unidos. Foi nessa época que começou a fazer intervenções pela cidade, transformando muros brancos em telas coloridas a céu aberto; viadutos em instalações. Três coisas me impressionavam muito quando eu cheguei na cidade: o fato de não ter pessoas caminhando na rua; o céu monumental na paisagem da cidade; e me impressionavam demais também os muros brancos: eles me incomodavam.

Foi pintando muros da cidade que ela teve sua primeira repercussão como artista  no centro e na periferia. Em muitos desses momentos reunia meninos em situação de exclusão social e saia colorindo os muros e as vidas deles. Atualmente a criançada continua na mira de Ana com os workshops de desenho e pintura, o Educando o Olhar. Um projeto que busca fazer com que o olhar dos pequenos enxergue o extraordinário das coisas no mundo. "A casinha com chaminé, a margarida continuam sendo ensinadas na escola, e isso é uma grande sacanagem, não provoca reflexão ou a criatividade das crianças. Aqui, se a gente vai desenhar uma flor, eu pego 20 tipos de flores, as mais diferentes possíveis, para que eles olhem de verdade, reflitam e se encantem", conta, gesticulando. Um trabalho que é um primor. Sempre tem fila de espera.

O ateliê é enorme e nem um pouco intimidador. Na verdade, ele pode ser caracterizado como sonho de consumo de todos os que queiram um oásis para criar, para congregar. A riqueza por lá são os detalhes, a afetividade, tudo é tão simbólico... Fotos e objetos de uma infância vivida no interior do Rio Grande do Sul, quadros pintados por ela, um móvel feito pelo marido, uma máquina de costura. Peças do artesanato indígena, cadeiras com cara de bem de família, muitas obras pintadas pelas crianças. Uma foto de sua mãe e um crochê feito por ela. Na parte dos fundos, duas redes coloridas decoram um gramado verdinho. Um lugar que emociona pela força e pela aura.

Pelo ateliê já passaram mais de três mil pessoas, somando crianças e adultos. Muita gente boa já esteve por lá em palestras: Humberto Espíndola, Leda Catunda, Maria Adélia Menegazzo, só para falar dos mais conhecidos, fora biólogos, botânicos, e outros artistas. Alguns deles chegaram a reunir 180 pessoas. Tudo gratuito, idealizado, produzido por ela e viabilizado via edital. O ateliê tem se transformado em um ponto de referência das artes visuais na região. Sonora Rafael Maldonato.

Parece que a energia de Ana Ruas vem de algum lugar plugado no 220V, um mundo das ideias que precisam ser materializadas urgentemente. Colado na parede de seu ateliê está uma pista do que a norteia: O que faz de um lugar, o nosso lugar? O que faz da cidade, a nossa cidade? O que é um lugar e o que é uma cidade? Que espaço eu ocupo? Que lugar, no mundo, Campo Grande ocupa? E eu, como habitante deste lugar, o que faço para merecer minha ocupação? "Faz algum tempo que tenho trabalhado com os conceitos de espaço e lugar. Meus temas têm surgido das coisas que estão ao meu redor. Sempre fui muito honesta comigo mesma, e uma vez, convidada para expor no museu, pensei: não quero ficar impressionando, falando sobre o que está acontecendo em SP, não é a minha realidade... E me inspirei em Manoel de Barros: se ele usa a formiga por que eu não posso usar o crochê da minha mãe, se o crochê é importante pra mim?"

Foi desse raciocínio que surgiu uma das séries mais aplaudidas de Ana Ruas: Redes. Pergunto: será que esse é um desejo inconsciente de descanso depois de tanta ação? Nada a ver com descanso... "Estava à procura de uma inspiração para uma obra e dei de cara com as redes do seu José. O jeito que ele as coloca na esquina, fazendo uma mistura de cores, é uma intervenção na cidade, embora ele não saiba. Fotografei durante 30 dias as redes do seu José e a partir daí surgiu a série Redes. Eu não estou falando de descanso, eu estou falando de uma intervenção. Agora, a obra é aberta e isso é o que é legal. Quando existe o olhar do outro a obra de arte se completa. E isso é lindo."

Ana é incansável tanto na mobilização de pessoas para seus eventos quanto na persistência para dominar a técnica da pintura - quanto melhor, mais fácil é o canal de comunicação entre o vedor e as metáforas criadas por ela. Talvez, um de seus melhores momentos seja o uso de sombras. "É um recurso de que eu me apossei e não consigo me desvencilhar. A sombra cria uma ilusão que me encanta. Existe um termo em francês, trompe l'oeil, que significa: acredita-se, por uns instantes, que aquela sombra é real." Foi com essa técnica somada a de construção de dobraduras que ela foi convidada para pintar toda a fachada do Museu de Arte e Cultura Popular de Cuiabá (MACP).

Parece pouco tempo, mas de 1996 até hoje a cidade mudou vertiginosamente. Embora os muros brancos ainda prevaleçam, o céu mudou bastante em sua horizontalidade monumental. Embora a artista continue investindo seu interesse e sua energia em educar (ou deseducar) o olhar das futuras gerações, ela também tem trabalhado o solo para a formação de público para a arte contemporânea: um problema comum em todas as formas de arte na cidade. Se eu não formo público, daqui a uns 20 anos eu não vou ter quem veja o meu trabalho. Se ninguém faz, eu tento fazer um pouquinho. Hoje em dia as pessoas não têm apenas fome de comida, elas têm fome de informação, e isso da classe D à classe A.

Naquela manhã, o ateliê estava em silêncio, mas era possível sentir sua vibração. Nos fundos, ao lado das redes, tem um portãozinho, que deixa ver um arbusto com florzinhas brancas do lado de dentro circulando a entrada. Ele vive aberto. É a casa de Ana. Uma imagem que deixa clara a ligação umbilical que a artista tem com a arte, dia a dia. Você tem que vir tomar um café aqui em casa com mais calma. Mas agora eu realmente tenho que ir! E vai me levando para o portão mais uma vez. Eu não me incomodo porque ela faz isso com um sorriso no rosto e deixando implícito que ali é um lugar para voltar sempre.  

Thais Pompeo, revista A GENTE,2014

Tag3 - Desenvolvimento Digital