A Cor de um sonho, 2011

Será que  família tem cor? E cheiro,  tem? Abraço tem textura? Beijo tem sabor? Amor, tem formato?

A família, direito fundamental de toda criança, é referencial máximo de todo ser humano. É nela que forjamos nossa personalidade e nosso caráter.

Este é um  livro-arte  elaborado por crianças  vítimas de violências e violações de direitos, o mais das vezes, por parte daqueles a quem incumbia o dever de zelar por elas, os pais, ou responsáveis legais. A justiça adota essa providência extrema para sua proteção, visando reinseri-las no convívio familiar ou colocá-las em adoção. Infelizmente nem sempre isso é possível, gerando mais sofrimento àquelas crianças que ficam à espera de uma família. Por isso, quem tem contato com crianças abrigadas passa a dar nova dimensão à palavra carência.

Escrevi o livro “enquanto mamãe não vem” visando trazer para perto do universo das crianças que tem uma família, a realidade daquelas que não tem, oferecendo uma porta para a criança abrigada entrar e sonhar. O livro traz uma história de adoção de uma menina de 09 anos, denominada  adoção tardia.

Assim, com a certeza de que as crianças além de terem o sagrado direito de ter uma família, também tem o direito de ser felizes, surgiu a idéia de realizar oficinas de arte com eixo temático sobre o livro, com crianças dos abrigos, a fim  de que elas, expusessem através das cores e desenhos, seus anseios, medos, fantasias  e desejos ,  em relação à família e ao momento que vivem.

A consecução deste arrojado projeto somente foi possível com  a coordenação e execução da artista Ana Ruas, pessoa de alma leve e sensibilidade ímpar, e com o apoio da Editora Alvorada que editou o livro infantil “enquanto mamãe não vem” .

Mesmo os  anos vividos à frente da Promotoria da Infância e Juventude, não  me permitiram um olhar isento naqueles momentos que acompanhei furtivamente o trabalho de Ana Ruas com as crianças. Maravilhada, pude apreciar os ricos momentos dedicados à coleta das imagens traduzidas nos desenhos e pinturas das crianças, no iluminado ateliê da artista.

Ana Ruas trabalha praticamente sozinha. O ateliê é quase o prolongamento de sua casa. Um amplo espaço onde os passarinhos entram sem pedir licença e onde todos os detalhes e objetos  tem uma historia, um significado, e em todos os cantos se vislumbra capricho e respeito à arte.  As crianças chegam e Ana procura instintivamente organizar as mais ativas concentrando suas atenções. Em poucos instantes se acomodam e após uma conversa que lhes dirige o pensamento através das simbologias do grande labirinto azul pintado na parece da entrada, começam a trabalhar misturando as tintas e produzindo o trabalho.

Quando relaxam e soltam-se, as crianças procuram Ana a todo instante disputando sua atenção. Um menino de uns oito anos, enrosca-se nela como um gato faz com seu dono. Quase não a deixa se mover. Ana coordena tudo atenta. Limpa os pincéis, informa onde é o banheiro, busca água, conversa, elogia, mistura cores,  dirige o olhar , atende.

 Ao falar de um tema tão difícil para estas crianças, e ao dar voz aos seus sentimentos através da arte, ela não perde o foco, e sua sensibilidade cede lugar à praticidade, mostrando sempre às crianças o lado bom de tudo, e convidando-os   a acreditar em seus sonhos. De repente, me chama num canto com os olhos marejados e me confidencia que uma das meninas estava debruçada sobre seu desenho com as lágrimas escorrendo sobre a pintura. O desenho trazia um labirinto que ocupava toda página e em uma das pontas estava a menina e na outra ponta sua mãe. Antes que eu pudesse dizer algo, Ana volta a trabalhar e a conversar com todos e também com aquela garota, pontuando-lhe firmeza e esperança para enfrentar as situações que ora vivencia.

Na hora do lanche, Ana Ruas oferece suco e um bolo feito por ela própria . Enquanto dávamos entrevistas, para entreter as crianças, ela traz uma fita adesiva e  despeja no chão um pote enorme de pequenos objetos e brinquedos quebrados.  A fita era para que “criassem”coisas novas. Um menino encontrou no monte, um relógio e saiu correndo feliz com ele no braço. Os outros disputavam os pedacinhos e comentavam sem parar o que iriam fazer com cada coisa encontrada. A possibilidade de criarem coisas novas era muito mais sedutora do que obter brinquedos prontos, e as crianças enchiam saquinhos com continhas, argolas, tampas, flores, e pedaços de brinquedos. Cada uma descobrindo uma forma de transformar aquele objeto em algo bonito.

As crianças, que já tinham expressado através da arte seu sonho, estavam aprendendo mais um pouco. Aprendiam a transformar, e a acreditar.

Naquela tarde, Ana foi uma verdadeira mãe para aquelas crianças. Aquela mãe do meu livro infantil, que atendeu cada uma delas, “Enquanto a verdadeira mãe, não vem”.

Apreciar estas obras e estar atento ao seu significado, é aproximar uma realidade difícil da realidade possível. É mostrar que se pode TRANSFORMAR, e que estas crianças tem sim, uma razão para sonhar.

ARIADNE CANTÚ

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